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terça-feira, 1 de novembro de 2011

Blog novo

Para ampliar o alvo dos meus textos, de agora em diante os posts serão feitos neste blog.


http://www.somosbemnormais.blogspot.com





Os textos presentes neste blog continuarão aqui para leitura, consulta, etc e tal.


Obrigado.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Embora

Tudo bem. Tudo ótimo. A vida é assim mesmo. Vai entender. Apesar de tudo, o ser humano é extremamente carente: queremos atenção. Para ele, para o ser humano, viver é ser assistido: um palco, um teatro. Pra quê tanta carência? Pra nada? Não. A carência é para evitar o pior sentimento no nosso teatro: a rejeição. Nas relações humanas, a rejeição pode ser o pior sentimento. Como um ator se sente ao ser rejeitado, indesejado pela plateia? Péssimo. Somos assim, carentes: precisamos da aprovação dos outros para acontecermos. Teatro.
Vale a pena pensar que essa carência e esse medo da rejeição que sentimos é, na verdade, um retrado de nós mesmos: somos carentes pelos outros porque não nos damos atenção; Temos medo de sermos rejeitados pelos outros pois não nos aceitamos. E o que resta? Nos darmos atenção e nos aceitarmos enquanto assistimos tudo ir. Embora.

Mesmo que acabe

Esfriou. Né? Coisa chata. Não precisava disso pra continuar legal. Mas esfriou e é uma pena.
Quando o inverno chega, assim, é dificil se acostumar. Coisa chata. Mas é a vida e a vida nunca é chata.
Mesmo que acabe.
Quando as coisas terminam, a gente só fica mal por uma coisa: o amanhã. Como será? Vou ter medo? medo de mudar. Só se for.
Quando as coisas terminam, o pior é a lembrança do adeus inacabado: por que não um adeus acabado, assim? Porque nem tudo precisa ser acabado. Mesmo que acabe. Coisa chata. Que pena.
Pra que essa dificuldade de aceitar as coisas que não temos mais? Odiamos mudanças. Por que? Porque algumas coisas não mudam. Mesmo que acabe.

terça-feira, 17 de maio de 2011

A minha história de amor com ela


Já chorei, muitas vezes. Implorei, venha logo, venha de uma vez, por favor. Já adianto: não adiantou.
Nosso amor começou cedo, bem cedo. A primeira vez que a vi eu era bem novo, mesmo. E durante toda a minha vida (até agora e até o fim) ela esteve e estará ali, sempre por perto. Há muito tempo eu a quis e não somente isso – eu a quis e quis que ela também me quisesse. Eu tentei consumir dela pra ela consumir de mim. Não deu. Tantas vezes me aproximei o máximo que consegui e ela me ignorou. Não falou uma palavra sequer, apenas não me quis. Não agora.
O meu amor por ela já foi muito grande. Hoje, nem tanto. Já fiz vários e incontáveis planos. Posso dizer, ironicamente, que já construí uma vida junto dela. Mas não deu certo: Ela, a morte, não me quis e acabou. Aqui estou, portanto.
 Só? Nem tanto. Viro pro outro lado e continuo caminhando. Conheço outra. Tão perigosa e bonita quanto a anterior, mas muito mais difícil de se conquistar. Eu vou guiando, por enquanto, ao lado dela, que me parece nova: a vida. E eu vou guiando e ela vem junto. Por enquanto, que seja por um bom tempo. 

terça-feira, 3 de maio de 2011

O amor é o melhor sofrimento

Daqui pra frente. É uma expressão que dói. Deixa pra lá. Daqui pra trás. Daqui pra trás atestamos: o amor é o melhor sofrimento. Tem sofrimento melhor?
Não tem. As saudades, a nostalgia, os cheiros, os toques. Nada mais belo do que sofrer por amor.
Aí você me fala: O amor não existe. Não? Não. Mas quantos ateus por aí acreditam em deus?
Dizer que o amor não existe é uma esquisofrenia reversa. Não existe? Claro que existe: É dependente, fugaz, hipócrita, carnal, martírico, terrível e maravilhoso. Mas existe. E o melhor é sofrer por ele. Não por falta dele. Por ele.
Sofrer por amor é romântico. Tem coisa mais bonita do que o clichê o que será da minha vida sem ele? Não tem.
As pessoas, hoje, todo mundo, na verdade, busca a independência: Quero ser uma pessoa independente. Isso sim é um sofrimento absolutamente inútil. Depender é viver. Particularmente, eu não gostaria de costurar minhas próprias roupas e plantar a minha própria salada, num exemplo mais tosco.Depender é viver.
Dependemos desde que nascemos, e assim será: Do cordão umbilical à fábrica de caixões e ao coveiro e ao padre que rezará a missa. Amém.
Mas depender do amor, ao contrário do que os cools e frígidos pensam, não é de um todo ruim: Depender do amor é depender do sentimento mais batido, enganoso, falso e belo que existe. Depender do amor é depender de todas as suas expectativas e planos. O que será da minha vida sem ele?
Sofrer por amor é violento. É volátil, irracional. Caótico. Ainda assim, válido. Quem nos ensina é Jesus: se não houver sangue, não há amor. Amém.

sábado, 23 de abril de 2011

Moacir: A vida é doce

Não sei. Trabalhar a vida inteira. Escolher a margarina mais barata. Juntar, economizar, poupar. Pra isso? A vida nos prega peças mesmo.Sempre foi assim. É como diria um amigo meu: A gente passa a vida gastando a nossa saúde para conseguir dinheiro. Depois, no fim, gastamos todo o nosso dinheiro pra tentar resgatar um pouco da nossa saúde. Que crueldade.
Como ficará o nosso filho? Sem pai.
Eu e ela passamos 25 anos tentando engravidar para, agora, o nosso filho crescer sem a minha figura. Ele nunca irá comigo em algum jogo do Palmeiras. Ele nunca assistirá comigo a fórmula 1. Esse câncer é uma coisa, não?.
Não sei o quanto vai adiantar eu vender tudo o que temos pra retardar os tumores. Eles vão tomar conta de mim. E o meu trabalho? Nunca mais. A palavra nunca nunca ficou tão evitende pra mim: nunca mais. Será que foi deus? Não sei. Será que foi a bebida? Acho que não.

Só quero que saibam que a vida é ótima, as flores são lindas, os pássaros são belos. Que fácil gostar da vida agora que a gente tá morrendo, né? A vida é uma merda e eu vou morrer.

Não, não. Também não é assim. A vida é doce. É só saber como vivê-la.

Avaliando o risco de suicídio em pacientes com transtorno bipolar: entrevista com o especialista Dr. Jan A. Fawcett

Entrevistadora: Jessica E. Gould, BA Entrevistado: Dr. Jan A. Fawcett


Nota do editor: O suicídio é um resultado devastador da depressão e pacientes com transtorno bipolar passam mais tempo deprimidos do que os maníacos. Médicos que tratam pessoas com esta doença mental devem utilizar todas as ferramentas a sua disposição para prevenir o suicídio, já que trabalham com o paciente e com a família para estabilizar o humor e melhorar a função. Dr. Jan A. Fawcett, professor de psiquiatria da University of New Mexico School of Medicine em Albuquerque, dedicou sua carreira ao estudo de transtornos do humor e suicídio. Nesta entrevista com Jessica Gould do Medscape, Dr. Fawcett fornece aos médicos os recentes conhecimentos sobre avaliação e tratamento do risco de suicídio em pacientes com transtorno bipolar.

Medscape: O que você acha que os médicos deveriam considerar quando avaliam o risco de suicídio em pacientes com transtorno bipolar?

Dr. Jan A. Fawcett: Os médicos devem saber que, em média, nos Estados Unidos, um suicídio ocorre a cada 30 tentativas. Em pacientes bipolares, a média é de um suicídio para cada três tentativas, [1] o que confirma o maior risco de suicídio em pacientes com transtorno bipolar: suas tentativas são dez vezes mais letais.
Já que o comportamento suicida é muito mais provável de resultar em morte em pacientes bipolares quando comparados com o público em geral, deve-se ser tão cuidadoso quanto possível com esses pacientes. A primeira coisa que os médicos precisam saber é o atual estado do paciente e se o mesmo apresenta alguma ideação suicida.
Se o paciente vem tendo ideação suicida, o médico deve inquirir sobre planos suicidas específicos fazendo perguntas como, “Você já tentou se suicidar? Você tem pensado sobre isso? Você tem planejado isso?” Muitas pessoas têm uma ideação suicida vaga, mas não como muitos que têm planos específicos. Algumas pessoas ensaiam planos em sua mente e essa é uma situação muito séria.
Você também precisa saber se o paciente está gravemente agitado. Os pacientes bipolares muitas vezes apresentam estados de humor mistos, nos quais estão deprimidos e maníacos ao mesmo tempo. Em outras palavras, não estão eufóricos como muitos dos pacientes maníacos, eles estão irritáveis e têm energia aumentada. Esta é uma situação particularmente de risco para um paciente bipolar.


Medscape: Por que o estado bipolar misto impõe tamanho risco?


Dr. Fawcett: O estado bipolar misto, especificamente em relação à rapidez das mudanças de estado de humor, é difícil de monitorar. Você não pode tratar a depressão dos pacientes com antidepressivos porque pode induzir mudança cíclica de humor. Ainda que o paciente possa mostrar uma melhora inicial, o curso do paciente pode se deteriorar em estados mistos ou transtorno bipolar de ciclagem rápida. E a energia aumentada e a impulsividade de um estado misto combinado com a dor e a desesperança da depressão criam uma situação na qual a probabilidade de comportamento suicida aumenta. Estes são estados instáveis que devem ser prevenidos.
A outra questão, que está de acordo com algumas questões de minha própria pesquisa, é se o paciente está sofrendo de ansiedade grave, tal como representado por pensamentos ansiosos que o paciente não consegue controlar. Isto pode ser um sério fator de risco para suicídio. Em um estudo recente com 32.000 prontuários de pacientes bipolares,[2] o maior fator de risco para suicídio foi ser do sexo masculino e ter transtorno de ansiedade comórbido, comparado a ser jovem e ter um transtorno relacionado ao uso de droga, que são preditivos de tentativas de suicídio, mas não necessariamente suicídio.


Medscape: Quais são os desafios inerentes para medicar pacientes com transtorno bipolar que podem correr risco de suicídio?


Dr. Fawcett: Os pacientes deprimidos com transtorno bipolar normalmente não lembram muito bem de suas manias. Por isso, algumas vezes é difícil colher a história de uma mania anterior, porque os pacientes esquecem ou acreditam que estavam normais durante o episódio de mania. Se você tratar tais pacientes com um antidepressivo, pode piorar suas condições, colocando-os sob maior risco, caso desenvolvam humor cíclico ou estado misto. Isto é uma coisa que faz com que o tratamento de depressão em um paciente bipolar seja mais complicado quando comparado ao paciente unipolar. A outra situação desafiadora é o paciente com agitação presente ou ciclagem rápida de humor que tem que estar mais estável antes que você possa tratar sua depressão.


Medscape: Em um artigo de 2005 que você escreveu para Medscape,[3] você disse que “certas formas de psicoterapia, particularmente terapia comportamental dialética, e talvez terapia cognitivo-comportamental e terapia interpessoal podem reduzir o risco de suicídio a longo prazo.” Por favor explique isso.


Dr. Fawcett: Quando estiver avaliando pacientes com transtorno bipolar em relação ao risco de suicídio, o médico deve ter duas questões em mente. A primeira é o risco de curto prazo, que requer o tratamento da ansiedade do paciente ou da gravidade de seus ciclos de humor. Isto deve ser tratado, como discutido nesta entrevista, com medicações que possam reduzir rapidamente a ansiedade e agitação. Este não é o caso em que o paciente precisa de psicoterapia. Em controle de risco de longo prazo, no entanto, estas terapias podem ser eficazes. A terapia comportamental dialética pode ajudar pessoas com comportamento impulsivo e impulsos destrutivos, e é particularmente útil para pessoas com transtornos de personalidade, que tendem a materializar seus conflitos ao invés de pensar ou falar sobre eles. A terapia cognitivo-comportamental auxilia no estado de desesperança, que está relacionado com suicídio e o sentimento de que nada vai melhorar. A taxa de redução de suicídio é maior em pacientes bipolares que se mantêm em tratamento medicamentoso por seis meses ou mais.


Medscape: Qual é sua maior esperança em relação ao tratamento de pacientes bipolares que estão em risco de suicídio?


Dr. Fawcett: Bem, eu acredito que o reconhecimento crescente da importância da ansiedade como um sintoma passível de tratamento, visando a reduzir os riscos de suicídio, é muito importante. Isto emergiu apenas nos últimos 5-7 anos, com estudos mostrando um risco maior de comportamento suicida em pacientes com transtornos de ansiedade comórbidos. Ao mesmo tempo, Greg Simon mostrou que o suicídio, não apenas tentativas de suicídio, estava relacionado com ansiedade.[2] Sintomas de ansiedade grave podem requerer tratamento adicional com clonazepam ou medicações antipsicóticas de segunda geração, que têm sido eficazes na redução de ansiedade grave e agitação quando administradas em conjunto com outras medicações para estabilização do humor.


Medscape: Qual é o maior desafio que os médicos enfrentam para reduzir o suicídio e o risco de suicídio entre pacientes com transtorno bipolar?


Dr. Fawcett: Bom, o desafio é obter informações para poder avaliar o risco imediato de um paciente em relação ao suicídio, que é uma avaliação difícil de fazer. Todo estudo que tentou determinar preditores de suicídio chegou à conclusão de que não há preditores – ao menos não estatisticamente significantes – que possam dizer ao médico que um paciente vai cometer suicídio. Precisamos de muito mais informações em relação ao que faria o suicídio ser altamente previsto para um futuro imediato. Eu acredito que isto ajudaria muito aos médicos.
Você não pode superdiagnosticar o transtorno bipolar, mas você também não pode ignorá-lo. O médico deve saber se um paciente tem história de comportamento ou plano suicidas. Se o paciente apresenta ansiedade significante, o médico deve saber disso também, e focar o fato no tratamento, já que os antidepressivos e estabilizadores do humor, sozinhos, não auxiliam nisso.
Até o momento, é uma batalha muito penosa diagnosticar e intervir para prevenir suicídio em uma sociedade livre, na qual os pacientes têm escolhas e, devido à depressão, desesperança e desânimo, podem desistir das possibilidades de recuperação. Esta é provavelmente a tarefa mais difícil dos médicos. Estamos perdendo pessoas, precisamos encontrar meios de tratá-las. É um desafio constante.
Esta entrevista foi publicada em colaboração com NARSAD, The Mental Health Research Association.

Referências bibliográficas

  1. Baldessarini RJ, Pompili M, Tondo L. Suicide in bipolar disorder: risks and management. CNS Spectr. 2006;11:465-471. Abstract
  2. Simon GE, Hunkeler E, Fireman B, Lee JY, Savarino J. Risk of suicide attempt and suicide death in patients treated for bipolar disorder. Bipolar Disord. 2007; 9:526-530. Abstract
  3. Fawcett JA. Suicide and bipolar disorder. Medscape Psychiatry & Mental Health. 2005; 10. Available at: http://www.medscape.com/viewarticle/510318_6 Accessed December 9, 2007.


Informação sobre as autoras: Entrevistadora: Jessica E. Gould, BA, escreve sobre medicina como freelancer, Washington, DC. Entrevistado: Dr. Jan A. Fawcett, professor de psiquiatria, University of New Mexico School of Medicine, departamento de psiquiatria, University of New Mexico, Albuquerque, New Mexico; professor de psiquiatria, University Medical Center, Albuquerque, New Mexico. Declaração de conflito de interesses: Os autores declaram não possuir conflito de interesses.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

A mentira e o bucho cheio de omelete

Caso psiquiátrico, sem jeito. Sem cura, eterno. Mentira. É simples, coisa rápida, só tomar jeito. Mentira. É sério, é com todo o mundo. Mentira, é com ninguém, só comigo mesmo. Mentira, é pra agradar, pra ficar bem. Mentira, é só por mentir, pela ilegalidade. Mentira, é pra viver farto, o bucho cheio. Mentira, é só omelete, antes de dormir. Mentira, dá ansia de vômito, pesadelo, insônia. Mentira, é de tanto mentir, nojo de si mesmo. Mentira, é bom, mentir. Mentira, é ruim, arriscado. Mentira, pra quê? Mentira, por que não? Mentira, porque sim. Mentira, morrer não existe. Mentira, mentir que morreu. Mentira, parece doença. Mentira, caso psiquiátrico, sem jeito. Mentira, sem cura, eterna. Mentira.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Entre os dois pólos do humor

Em 2006 T.M. participou de uma viagem com um grupo de alunos de uma universidade carioca. Os professores seguiram em uma Kombi, e mais atrás foi um ônibus com 52 alunos. Lá dentro, alguns estudantes começaram a beber e fumar, causando um verdadeiro rebuliço. “Não aguentei, falei um monte de desaforos, segurei no bagageiro e aumentei muito a voz”, contou. “O pessoal se assustou, eles não esperavam uma reação minha daquelas. Foi fora do meu comum, eu jamais faria isso. Não teria uma reação explosiva do jeito que eu tive.”

A reação “fora do comum” relatada pelo estudante provavelmente não teria ocorrido caso ele não sofresse do transtorno afetivo bipolar, um conjunto de sinais e sintomas que podem durar semanas ou meses e que causa o estado do humor a variar de maneira periódica ou cíclica apresentando-se de forma normal, elevada — chamada de mania — ou deprimida.
Ao longo da vida, as pessoas apresentam estados de humor variados, mas ainda se sentem no controle. No transtorno afetivo bipolar, no entanto, essa sensação de controle é perdida, gerando muito sofrimento para os que convivem com o problema.
Até os anos 80, o transtorno bipolar era conhecido como psicose maníaco-depressiva. A partir daí passou a ser chamada de transtorno afetivo bipolar, uma síndrome que acomete, segundo estimativas, 1% da população mundial e de 1,8 a 15 milhões de brasileiros, nas suas mais diversas formas de apresentação.
O médico e professor de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, Valentim Gentil Filho, em entrevista ao Dr. Dráuzio Varella, afirma que a síndrome mudou de nome porque analisando separadamente, a denominação antiga carregava uma carga negativa, estigmatizada.
“Maníaco [de psicose maníaco-depressiva] é um termo técnico derivado do grego e significa loucura. De fato, na fase de hiperexcitabilidade, o indivíduo é o estereótipo do louco já que suas atitudes destoam, e muito, do padrão normal de seu comportamento. Depressivo era o termo mais brando dos três e que menos impacto causava. Por isso, considerou-se que a expressão psicose maníaco-depressiva era pesada demais para designar uma doença que, de certa forma, não era tão terrível quanto o nome fazia supor”.
Para o psiquiatra e pesquisador Diogo Lara, em seu livro Temperamento Forte e Bipolaridade: dominando os altos e baixos do humor (ed. Revolução das Idéias), o humor bipolar poderia ser comparado a ter um par de patins: “em alguns lugares é difícil de caminhar, em outros anda-se muito mais rápido do que quem está sem eles. Quanto menor o controle maior a emoção!” Desta forma, para aqueles que conhecem bem os seus patins — aprendendo a minimizar os riscos e andando em terrenos mais favoráveis — tê-los pode até ter suas vantagens.
Altos e baixos
O termo bipolar expressa os dois pólos de humor: o da mania e o da depressão. Diferente de como muitas pessoas utilizam, equivocadamente, a palavra mania — como mania de limpeza, de conferir as coisas, ou até maníaco no sentido de assassino, psicopata — o termo médico é descrito de outra forma. Um episódio maníaco é descrito por Benjamin e Virginia Sadock, autores do livro Compêndio de Psiquiatria, como um determinado período de humor fora do normal e persistentemente elevado, expansivo ou irritável.
Aquele que passa por uma crise de mania costuma falar muito, falar rápido, ter idéias de grandeza, se sentir muito poderoso, capaz, inteligente, bonito, rico, gastar de maneira desmedida, se sentir com mais energia que o normal e a sua libido tende a aumentar. O doutorando T. M., de 27 anos, foi diagnosticado como bipolar em 2007. Ele se descontrolava com seus gastos durante as crises maníacas. “Gosto muito de ler, mas acabava comprando uma quantidade de livros que eu não conseguia dar conta. Depois que eu comecei a me tratar, os excessos diminuíram bastante.”
O recém-formado administrador de empresas F. F., de 24 anos, já passou por crises de mania em que ficava tão cheio de energia que passava noites sem dormir. “Eu já fiquei sete dias sem dormir no período de mania. A coisa que eu mais queria era dormir, mas não conseguia. Posso querer ficar um, dois dias assim, mas sete não. Eu já não agüentava mais, estava ficando pirado.”
Assim como F. F, durante essas crises de humor “para cima”, muitos bipolares passam a dormir menos horas por noite e não ficam cansados. Além disso, emendam um assunto no outro — mesmo sendo capazes de manter uma coerência lógica. Costumam ficar muito desinibidos, perdendo a noção crítica do que é aceitável para cada situação, fazendo besteiras e achando tudo normal. É como se o bipolar estivesse em pleno carnaval, se divertindo e brincando com todos, mas de maneira, muitas vezes, inadequada.
No outro pólo do humor, durante as crises de depressão, as pessoas costumam ter idéias negativas, de ruína, sentem-se tristes e com energia baixa. Atividades simples e cotidianas, como tomar banho e escovar os dentes, podem até ser deixadas de lado. A perda do apetite é comum, mas às vezes pode-se ganhar mais peso. O indivíduo fica mais lento, sem vontade de sair da cama, e costuma ter dificuldades de concentração. Em casos mais graves, pode pensar em cometer suicídio, chegando até as últimas conseqüências.
Segundo a psiquiatra Magda Vaissman, a depressão é uma das maiores causas de suicídio e afastamento do trabalho, trazendo enormes prejuízos pessoais. “No caso de álcool e drogas, a maior parte dos pacientes, eu diria que 60% ou 70% dos pacientes, têm um transtorno afetivo associado”.
Estimativas publicadas no site da Associação Brasileira de Transtornos Bipolares apontam que até 50% dos portadores tentem o suicídio ao menos uma vez em suas vidas, enquanto cerca de 15% efetivamente o cometem. Trata-se, portanto, de um transtorno grave que não só pode incapacitar o indivíduo — que não conseguirá levar uma vida normal de trabalho ou social –, mas que também põe em risco a própria vida.

Os principais tipos da doença
Para entender um pouco mais sobre o transtorno afetivo bipolar, é preciso saber como a doença é classificada. De acordo com a classificação do livro Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), um dos parâmetros utilizados pelos médicos, os transtornos bipolares são enquadrados em tipo I e tipo II.
O tipo I é aquele em que o paciente apresenta os quadros clássicos de mania e depressão, podendo um ser mais freqüente do que o outro. Em geral, as crises depressivas são mais freqüentes e ocorrem por períodos mais longos do que as crises maníacas. Estima-se que cerca de 1% da população mundial seja bipolar do tipo I. O tipo II — manifestado por 6 a 8% das pessoas — ocorre quando existem crises depressivas e crises de mania mais leves, chamadas de hipomania.
Essas alterações leves de humor eufórico são geralmente de difícil diagnóstico e podem não ser detectadas pelo médico. “Como é um quadro mais leve e não causa problema nenhum, o indivíduo fica mais ativo. Na verdade, ele fica melhor e todo mundo gosta”, diz o Dr. Elie Cheniaux. O paciente costuma trabalhar melhor, por mais tempo, e pensa de maneira mais criativa. Na vida pessoal, costuma ser mais fácil conhecer novas pessoas, pois ele tende a se tornar mais sociável.
E é aí que mora o perigo. O bipolar, em crise de mania, pode nem chegar ao médico por considerar positivo aquele tipo de humor ou por achar que episódios como aqueles são perfeitamente normais. Por isso, as crises de mania leve podem não ser relatadas pelo paciente ou não ser detectadas pelo especialista. A depressão é mais facilmente diagnosticada, por outro lado. Esta dificuldade pode ser refletida no tratamento, já que antidepressivos podem desencadear a mania no paciente bipolar.
Conheça as áreas afetadas no cérebro de um bipolar e o que os cientistas estão começando a descobrir:
Como atua
O que ocorre
1 – Estriato
Ajuda o cérebro aprocessar recompensas
Perda de 30% da massa cinzenta na região. Isso interfere na capacidade de julgamento. A pessoa pode gastar demais, por exemplo
2 – Córtex pré-frontal
Regula as emoções, a capacidade de planejamento e a motivação
Até 40% de redução da massa cinzenta. A pessoa tem dificuldades para desenvolver uma atividade constante
3 – Amígdala
Ajuda a reconhecerexpressões faciais. As transmissões entre os neurônios aumentam em resposta aos estímulos emocionais
Lentidão na resposta aos estímulos, reações fora do tempo normal
4 – Hipocampo
É um dos centros da memória. Parte dele ajuda no reconhecimento de perigos ou recompensas
Ansiedade constante e dificuldade para diferenciar situações seguras das de risco
5 – Tronco cerebral
Onde o neurotransmissor serotonina é produzidopara ser espalhado pelas diferentes partes de cérebro
Bipolares têm menos serotonina, o que pode contribuir para a atrofia dos neurônios e levar à depressão
Principais causas
Como para a maioria dos transtornos mentais, o componente genético desempenha um dos papéis mais importantes no desenvolvimento do transtorno afetivo bipolar. Segundo dados do livro Temperamento Forte e Bipolaridade: dominando os altos e baixos do humor, há uma chance razoável de um pai e uma mãe bipolares terem filhos com as mesmas características. No caso de um par de gêmeos idênticos, se um deles tem o transtorno afetivo bipolar, há 80% de chances de que o outro também o tenha. Por isso, uma avaliação psiquiátrica completa não pode deixar de levar em conta a história familiar do paciente.
F.F. conta que seu avô tinha o mesmo transtorno que ele descobriu ter na infância. “Ele era Procurador Geral da República e ganhava bastante dinheiro, só que torrava tudo. Ele nunca teve uma vida estável, muito pelo contrário.”
Além do componente genético, acontecimentos da vida podem ajudar a desencadear as crises. Em geral é muito comum ocorrer algum episódio ruim, alguma ocorrência de estresse. Depois da primeira crise, passa a ser menos freqüente que um evento seja o causador destas crises.
Apesar de ser uma doença cujos sintomas sejam bem definidos, ainda se sabe muito pouco sobre as suas causas. Os casos típicos são simples porque não se tratam de meras flutuações do humor, de sentimentos de alegria ou tristeza. “Existe todo um conjunto de alterações em que o individuo fica muito diferente do normal, o leigo percebe que ele não está normal, embora possa não saber o nome da doença”, alerta o Dr. Elie Cheniaux.

Tratamento
Apesar de se tratar de um transtorno que pode causar graves alterações no humor do bipolar, afetando a sua vida diretamente, a boa notícia é que existe tratamento eficaz. O objetivo principal do especialista é tentar reduzir os fatores que desestabilizam o humor do paciente, embora a doença não tenha cura. O acompanhamento farmacológico deve ser feito por toda a vida.
O lítio é um dos primeiros medicamentos que surgiram e ainda é uma dos mais usados como estabilizador de humor — embora funcione melhor na prevenção de crises maníacas do que para crises depressivas. Como qualquer medicamento, o lítio também pode causar efeitos colaterais. A.L., de 28 anos, teve sucesso com este medicamento, mas sentiu seus efeitos negativos: “No meu caso, o lítio foi o estabilizador de humor que mais funcionou, porém os efeitos colaterais foram bem ruins”. Ela conta que a sua pele ficou mais ressecada, teve queda de cabelo — e perda de brilho — e aumento de peso. “Eu bebia muita água também, já que a sensação de sede é constante”.
Alguns antipsicóticos — usados para tratar esquizofrenia e outros quadros psicóticos — e anticonvusivantes funcionam, embora não se saiba exatamente o motivo.
Tratar a depressão bipolar é mais complicado do que tratar a depressão unipolar — que ocorre sem que existam episódios de mania –, já que ela é muito menos estudada. Existe um grande risco de o depressivo bipolar mudar para a mania. “Os antidepressivos favorecem isso, pois o paciente melhora, melhora, melhora tanto que vai para a outra crise”, ressalta o Dr. Elie Cheniaux. Surge, então, uma polêmica: antidepressivos devem ou não ser usados no tratamento da depressão bipolar? Alguns médicos apóiam a sua indicação, com muita cautela, enquanto outros são totalmente contra.
Acima de tudo, o tratamento contra a depressão é extremamente importante porque o bipolar costuma permanecer mais tempo em depressão do que em mania. Em casos de episódios mistos — em que o bipolar apresenta características tanto de mania quanto de depressão –, o risco de suicídio aumenta ainda mais. Isso porque a tristeza e a desesperança, que fazem o indivíduo ter vontade de morrer, são sinais típicos da depressão. No entanto, o indivíduo não se mata porque ele se sente tão desprovido de energia que não tem sequer forças para levar a cabo o seu desejo. No episódio misto, então, ele pode manter essa desesperança, mas tem forças suficientes para tentar se matar.

Como ajudar?
Ainda que para a maioria das pessoas que estejam vendo de fora seja difícil entender o que está acontecendo com um bipolar, a ajuda de amigos e familiares é fundamental. “Quem está de fora pode ajudar com mais sucesso oferecendo apoio, compreensão e disponibilidade para atenuar os prejuízos do momento”, afirma o Dr. Diogo Lara. Ele ressalta em seu livro que muitas vezes é um familiar que toma a decisão de procurar ajuda especializada, já que o doente não tem energia, pode negar a necessidade de tratamento ou porque teme ir a um psiquiatra ou psicólogo.
Existem casos, no entanto, em que a própria família do paciente tem dificuldade de entender e encarar a doença, daí a importância de se informar da melhor maneira possível. Há aqueles que chegam a achar que a depressão não é nada mais que preguiça, e a mania, “falta de vergonha na cara”. Isso porque, para grande parte das pessoas, as enfermidades mentais não são consideradas doenças e porque ainda há um estigma por trás do tratamento psiquiátrico.
Criatividade
Embora existam alguns estudos acerca deste tema, não há comprovação de que haja uma relação direta entre a criatividade e o transtorno bipolar. Mesmo assim, uma rápida busca pela internet nos revela uma lista enorme de personalidades famosas — e extremamente criativas — que foram diagnosticadas ou que se aponte como sendo bipolares: Kurt Cobain, Vincent Van Gogh, Janis Joplin, Elizabeth Taylor, Edgar Allen Poe, Ulysses Guimarães, Leon Tolstoy, Jackson Pollock, Mozart, Virginia Woolf, Winston Churchill…
Para a Dra. Magda Vaissman, uma teoria para responder a esta dúvida poderia ser o fato de que muitas pessoas que sofrem do transtorno afetivo bipolar são extremamente sensíveis. “Elas vêem a vida de uma maneira colorida demais, por extremos. Isso provoca reflexões nas pessoas e a produção artística está relacionada aisso.”
O bipolar Thiago Marinho ressalta o lado negativo que existe por trás de um falso “glamour” conferido ao transtorno. Muitos adolescentes, que têm como ídolos roqueiros como Kurt Cobain (foto), Axl Rose, entre outros, acabam querendo incorporar aquela atitude do ídolo, associada às pretensas características de um bipolar. “Não gosto desse glamour que estão dando para o transtorno bipolar, não é brincadeira.”
Apesar da gravidade da doença, é necessário repetir que um bipolar pode, sim, levar uma vida normal como qualquer outra pessoa, desde que seja bem assessorado por profissionais qualificados.
* Gostaria de agradecer a ajuda e o material fornecido pela psiquiatra Cloyra Almeida, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, para a execução da matéria.


Fonte: http://opiniaoenoticia.com.br/vida/saude/entre-os-dois-polos-do-humor/

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Ao meu amigo Carlos e a mim mesmo

Enquanto estivemos vivos, fomos muito saudosistas, não? Será que alguém ainda lembra de nós? Você lembra quando íamos ao cemitério ver as fotos? E ainda pensávamos: pobres deles, coitados. Não sabíamos que os coitados éramos nós.
                Lembra-se quando discutíamos, cada um de uma vez, sobre a solidão? Gostávamos ou não? Pois bem, agora estamos sozinhos, cada um de uma vez. E o que aconteceu? Nada.
                Aproveitamos a vida? Nós nos conhecemos, sabemos que sim. Sentimos todos os gostos, sentimos todos os graus de esperança e perspectiva de vida. Sentimos o gosto das lembranças, do amor (e da falta dele), sentimos quase tudo. Quase tudo tudo junto. Estivemos juntos enquanto estive aqui, e depois que fui embora ainda penso em voltar pro cemitério, com você, e ver as fotos. Lembro-me bem de uma foto de uma criança que morreu ao mesmo dia que nasceu. Você lembra? Sentimos o gosto da falta do gosto, juntos.
                O objetivo aqui não é artístico ou qualquer coisa que pareça. É uma carta, apenas. E que gosto você sentia pela vida? Era a pergunta que nunca nos fizemos. Já estava respondida, como a foto da criança. O gosto da falta de gosto.